
Eles nem dançam agora. Ela quer sair dali antes que aquele guapo chegue às últimas notas, preferia aquele tango pela metade. Ela fugia a todas as regras civis presumidas para aquela dança que ele a ensinara todas as manhãs.
- Eram os pés mais provocantes que eu havia visto, pensava ele quase dizendo em voz alta.
- Você gosta do tango que está tocando?
- Muito.
- Eu não quero ficar aqui até o final desta música.
- Vou completar seu Campari.
- Não, já chega. Há algo de errado com o meu colo?
- Longe disso. Sua face esta tão suave ...
- Está um pouco quente aqui dentro, se não fosse este tango...
- Repare como as pessoas estão felizes.
- Olhe para aquele casal. Quantos anos você acha que eles têm?
- Parece que já os vi antes. Uns 30.
- Ela parece ter menos. Veja suas mãos como são delicadas.
- Sim. Ele deve amá-la e talvez não seja recíproco.
- Talvez ele a peça em casamento esta noite.
- Deve ter muitos pretendentes.
- Deve. Ela parece infeliz e também acho que não sabe dançar.
- Você percebeu que eles também nos olham atentos?
- Será que algum deles nos paquera?
(Seguro sua mão com calma, beijo sua boca da forma mais calma e provocante possível. Eles ficaram sem graça)
- Ela se levantou, deve ir buscar uma soda. Ela é estranha. Você acha ela bonita?
- Bonita e estranha. Mas uma beleza simples, porém inquieta.
- Eu não gosto de beleza como a dela, sabia?
- Note que ele fica perturbado quando ela sai. Talvez por medo ou insegurança.
- Ele é um bom rapaz, tem jeito de gostar de Fernando Sabino.
- Ele parece muito correto, veja seus cabelos alinhados.
- Quando eu me referi a beleza, quis dizer que a dela parece eterna. É uma beleza que não sai do lugar, não oscila.
(Te abraço um pouco mais forte e noto que seu ombro esquerdo esta gelado. Massageio com pressão)
- Deve ser o vento que entra pela porta.
- Eu te amo sabia?
- Você percebeu que está falando isso pela primeira vez?
- Guardei esta frase por tempos, na ânsia do melhor momento.
- Justo agora que ele toca aquela música que é triste.
- Tremi por dentro em dizê-la.
- Não trema, penso que te amo também.
- Sinta a música.
- Vamos dançar?
- Desejo ir embora depois dessa...
(Minha boca a toca paciente...)
- Você parece não estar a vontade dançando comigo.
- Não noto ninguém a nossa volta, o tempo quebrou-se. Há somente eu e você e os músicos lá em cima do palco.
- Tenho um pouco de medo de viver o amor.
- Acho que tenho medo de perde-lo.
- Por que não nos encontramos antes?
- Porque tínhamos que nos encontrar neste bar velho de esquina. Te contei que quando criança quis construir um bar na esquina da minha casa para vender Prestígio e Coca-Cola, porque o homem por quem me apaixonara minutos antes bebia num boteco de rodoviária com essas arquitetura?
- Não desvie. Essa música, você, o ambiente, as rosas lá na entrada. Tudo é tão fascinante.
- Por que será que as pessoas que estão lá no balcão nos encaram?
- Talvez seja nossa imagem de um casal apaixonado. Nossos beijos são constantes, as pessoas notam e as senhoras não gostam.
- Promete ir embora antes desta canção terminar? Não gosto de ponto final nestas melodias.
- Seu desejo talvez seja ficar.
- Melhor não, não hoje.
- Posso acompanhá-la até sua casa?
- Estou confusa e um pouco zonza. Posso pegar um táxi e ir sozinha?
(Agradeço ao gentil garçom)
- Já ia pedir pra agradecê-lo.
- Eu te levo, por favor.
- Ouça: preciso reconstruir tudo o que nos ocorreu esta noite. Quero fazer isso enquanto atravesso esta cidade que sempre está sozinha a essa hora da madrugada.
- Me senti um pouco estranho em devotar meu amor. Já te pertenço. Mesmo que ainda duvides. - Hoje quero mostrar a ela que tenho um amor...Até certo dia, doce rapaz.
- Seu encanto me fascina, sempre e sempre.
- Perdoe se agora te desaponto. O táxi já vem.
- Lutarei por tê-la. Não como amante, mas como uma estrela que se admira nas noites baixas e se guarda com as duas mãos.
- Sua garota já está longe, sussurra aquele senhor de paletó amassado.
- Um pedaço de mim se foi. Suspiro como se estivesse para morrer, mas me sinto leve. Jamais amarei pela metade. Deitado, abraçando o travesseiro repouso feliz.
(Quarta-feira, 2 de Abril de 2008)
Com Fábio Mascaro