domingo, 20 de julho de 2008

CARONA NA CAUDA DE COMETA

Um dia ela esperava as amigas numa mesa. Sem que ninguém visse subiu a rua, parou na esquina, olhou para os dois lados e depois para trás. Escalou uma das tantas árvores sem que ninguém se desse conta. Uma menina, que corria pela praça tirando a atenção do pai que acompanhava a missa, até olhou. Então ela subiu até o alto, pendurou-se pelos pés como um morcego e ali ficou até o sangue descer para a cabeça e pingar através dos olhos. Ainda estava consciente quando ouviu a sirene e a movimentação da pequena cidade. Ninguém nos próximos sete anos olharia para cima além da criança que apontou o dedo naquela direção duas vezes naquele dia.

terça-feira, 15 de julho de 2008

SOCUERRO, NÃO ESTOU SENTINDO NADA, NADA, NADA

Pode enfiar o anelar do José Mojica no meu umbigo, o cabo do pente de dentes finos na bola preta do meu olho, pode enfiar no meu rabo o Ney Matogrosso, suas miçangas e todos os cabides do Versolato para a ocasião, Elke Maravilha, Isabelita dos Patins, um pierrô imitando Cristo Redentor, a nave da Xuxa, toda a rede Wal-Mart do extremo sul do País, as botas brancas das paquitas enfileiradas, 100 passistas da Mangueira, o cocô de dez dias a base de Nescau e toda a coleção de Anish Kapoor. Nada, nada, nada.

domingo, 6 de julho de 2008

BENEDITO

Uma homenagem ao santo que toma café em cima da geladeira. Rodolfo e grande elenco. http://revistabenedito.wordpress.com/

segunda-feira, 30 de junho de 2008

JUNHO É SÓ JUNINO

Esqueça junho, 2008 e as contagens regressivas.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

EDIÇÃO LIMITADA

A fonte secou - volume I.

sábado, 14 de junho de 2008

UM BOM MALANDRO NÃO TOMBA

Em Mangueira/Quando morre/Um poeta/Todos choram
Vivo tranqüilo em Mangueira porque sei que alguém há de chorar quando eu morrer
Mas o pranto em Mangueira/É tão diferente/É um pranto sem lenço/Que alegra a gente
Hei de ter um alguém pra chorar por mim/Através de um pandeiro ou de um tamborim
Em Mangueira/Quando morre/Um poeta/Todos choram
Todo tempo que eu viver só me fascina você, Mangueira
Guerriei na juventude, fiz por você o que pude, Mangueira
Continuam nossas lutas,podam-se os galhos, colhem-se as frutas e outra vez se semeia
E no fim desse labor/Surge outro compositor/Com o mesmo sangue na veia.

(No Tom da Mangueira/Cartola)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

O ROMANTISMO MANDOU AQUELE ABRAÇO

Quero ir na fonte do seu ser e
banhar-me na sua pureza,
nadar em goles gotas de felicidade,
matar saudade que ainda existe em mim,
afagar teus cabelos molhados,
pelo orvalho que a natureza reza,
com sutileza, que me fez a perfeição,
deixando a certeza de amor no coração.
Deixa eu te amar,
faz de conta
que sou o primeiro,
na beleza desse seu olhar,
eu quero estar de corpo inteiro.
Quero saciar minha sede,
no desejo da pai xão que alucina,
me embrenhar nessa mata só porque,
existe uma cascata que tem
águas cristalinas.
Aí então vou te amar com sede,
na relva na rede
onde você quiser,
quero te pegar no colo,
te deitar no solo,
te fazer mulher

(Salve Agepê)

SUASSUNA ARIANO A TAÇA...

.... que era nossa

terça-feira, 10 de junho de 2008

CAPRICHO, QUERIDA, ATREVIDA E AFINS

Para não ir além-mar, pra lá do Tietê, era só ele aquietá-la dizendo: “tá com tédio? toma Toddy”.

- Tô com tédio.
- Leia um livrinho ruim.
- Alguma sugestão?
- Leia um Paulo Coelho e circule os erros de português.
- Já fiz isso quando tinha 13 e nem me venha com Sabrina, não posso ter ereções. Dispenso também Sidney Sheldon.
- Eu tenho ereções quando assisto National Geographic ou Discovery Channel.
- Nada me constrange mais do que animais se acasalando. Meu cachorro transa todos os dias depois das refeições principais com um travesseiro, um sapo de pelúcia ou com uma almofada. Eu corto caminho na sala.
- Se eu não tivesse que trabalhar, também transaria com um criado-mudo jeitosinho todo dia depois do almoço.
- Tiraria a gaveta ou deixaria semi-aberto?
- Semi-aberto. Fricção é tudo.
- Foi por isso que pensei que tirasse a gaveta.
- É um erro comum. Eu tenho cara de bem-dotado. Ledo engano.
- Mas olha, se continuar nessa de criado-mudo, daqui a pouco virão os sapatos de bicos finos e proclamo o fim da minha espécie.

...

- Você já comeu coisas azuis e convexas? Tipo um Niemeyer?
- Ah, as linhas curvas me fascinam.
- E o azul anil?
- Ai, pára que eu tô quase lá.
- (Não é apenas o Otto e o Serguei que comem coisas estranhas), pensou alto.
- Eu não como nada estranho. Sexo com utensílios domésticos, anões e móveis é bem comum.
- Você já teve noites românticas com ursinhos da Mattel?
- Não quero falar sobre isso. Eles nunca mais me ligaram e foi tão bem, tão perfeito...
- Mamma mia, é sexo casual, tá escrito na etiqueta.
- Não importa o que digam. Vou sempre amá-los.
- Você lembra da Peposa? Diz que sim.
- Não, lamento.
- Talvez resolvesse seu problema, tenho um exemplar.
- Ó, dica de sexo: frasco roll-on de desodorantes Pierre Alexander.
- Ele usa, ela usa.
- Não repare minha demora, estou procurando utensílios potenciais para nossa pesquisa.

...

- Acabo de descobrir chinelos de inverno.
- Quentinhos.
- Veja só como são aconchegantes. Além do que são revestidos de imagens dos mais interessantes tipos. Veja só: Betty Boops.
- Tô ficando daquele jeito.
- Se continuar assim, não podemos ir adiante. Tá com 15?

* Eu sou a de saia rosa, com tiara da mesma cor. O de macacão azul é o Rodolfo, literato que assina como jornalista e escreve os textos mais limpos desse mundão véio sem porteira.

Da série "Coisas que não acontecem mais atrás da mangueira daquele pomar de vestidos brancos e varas de pescas numa linda tarde de outono de flores do chão depois do almoço de domingo".

sábado, 7 de junho de 2008

TAGARAGARAGA *

Minha mãe teve vizinhos que tocavam orgãos de igreja e que ouviam "balad of the john and yoko", até as duas da manhã. Ela perdoava os da segunda hipótese. No outro dia, lá pelas sete, ela dava uma lata de tinta vazia e um pedaço de pau para mi hermano e dizia: toque bumbo, aqui perto dessa janela, da janela dos da primeira hipótese. E ele se sentia o da caixa de repinique na fanfarra municipal. Sempre tive medo daqueles faixas aveludadas carregando o nome da cidade e da menina igualmente vestida de veludo abrindo espacate no asfalto quente. Vai ver que é porque nesta época eu assistia aos desfiles do Sete de Setembro com as minhas lindas e dóceis patas ortopédicas, enquanto elas usavam sapatilhas com fru-frus.

*som do repinique, segundo o meu especialista em onomatopéias e tocador de repinique até os 11, Keith Richards e sua air guitar até hoje...
...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

FÉLICITÉ

As coisas acenam a mão do lado de lá e eu abano as minhas do lado de cá. Tudo começa de novo em junho. É o eterno retorno, dizia o grande amigo de Wagner. Algumas coisas saem do lugar, inspiradas por formigas que mordem a bunda, outras nem pensam em voltar para o lugar de onde nunca deveriam ter saído. Tropeço, mas não imito o papa.

Ser, estar, permanecer, ficar (rápido), andar, continuar, tornar-se, virar-se, viver (lentamente) é quase a nona de Beethoven, é quase a inscrição do pergaminho.

domingo, 1 de junho de 2008

SACODE A POEIRA

A espinha de peixe produzida com agulha e linha está abanando as mãos aqui, toda contornada por Pilot azul e vermelha. Adíos pinta, seios e vulva. Amanhã a essa hora o novo inquilino será o mapa do Chile. És un placer recebê-lo, senhor de Neruda, tem uma centena de poemas bilíngues a serem hipotecados.

Dá jeito para mim, coloque tudo no lugar, até no lugar que não estava antes. Já falamos sobre a pinta, né? Ela fez morada aí e nunca vai mudar de cor, nem sumir feito contestelações empoeiradas. Diz que tem jeito, que será fácil, que tira de letra, que você sabe bem o que está fazendo e que depois disso eu nunca mais precisarei me lamentar, mas que vai deixar um sinalzinho feito ponta de lápis que servirá como o marco zero de uma vida que acaba de começar. Não quero ter medo, bota a torcida alvinegra pra segurar minha mão. Tem uma música que me acalma, sim tem. O único rondó musicado que tenho notícia: bambalalão, senhor capitão...Não deixe minhas mãos ficarem geladas. Dê notícias a minha mamá. Hoje sou capaz de prever um dia feliz.

Tudo recomeça bem em junho. É a segunda chance de todas as coisas. É o fim que levaram todas as flores. E eu sou feliz por parecer uma folha qualquer com um desenho de sol amarelo e fazer xixi na cama de felicidade prevista...

tocaí pablo:

"Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar, a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria".

Legenda: Saturno devorando a un hijo (Goya) ou Pilot sobre la panzón (RC.Okida)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

ESSA COISA QUE NÃO TEM NOME I

A&G

- eu conceituo as pessoas fáceis! condensar você é esperar que as manias e peculiaridades se repitam pra saber quais são perenes, mas isso nem sempre acontece...
- comece com um acróstico, que tá lindo:
Gauchê
uRna eletrônica
Ana Raio
Zé Trovão
Igreja barroca
Etc
açúcar cristaL
fArinha de trigo Nita
- mas você não confirma nenhuma impressão, é sempre surpresa

UMA COISA QUE NÃO TEM NOME II

Dez/2007. Nesses dias pela manhã, de verdade, entrei na tua cegueira. Apoiei-me nos teus braços com meus passos lentos. Tateei seguindo o teu olfato. Foram trinta dias sem você e quatorze lado-a-lado. Eles queriam comer, eu queria dançar. Eles queriam se banhar, eu não queria ver a barriga aberta. Eles queriam voltar pra casa, eu queria sair da minha. Eu pontuei todos os parágrafos. Depois apaguei todos os rascunhos. Eu vi teu choro. Você provocou o meu, o dela, o deles.
...


essa coisa é o que somos

segunda-feira, 26 de maio de 2008

DOIS MAIS DOIS SÃO CINCO

é isso aí minha gente, engoli um tonel de activia. e tudo por causa da numerologia. 14, 14. veja lateral esquerda e acabe com suas dúvidas desse lado do hemisfério.

TODOS OS NOMES

picasso casou, usou terno no cartório e fotografou o melhor momento. outros dois voltaram a namorar, ela: dedos de pianista, ele: porte de Frejat. rhiéle mantém os dedos de molho após a queda. amanda deve estar de blusinha palha de lã. caio baba em lucas que chegou num dia de sol de rachar sertão de joão cabral. toninho bate forte no solar da fossa. fernando e sua barba por fazer está sentado ao lado de aspones que ouvem fm. ju está no ônibus. elinaldo deve estar reclamando da água fria que lava seu rosto neste momento. renato, pelo jeito, rola na cama encostada na parede. letícia vende epocler a um jovem de 32 anos. lu, thalita e kelly discutem de costas para a janela sobre o novo cliente. lu casou e pensa no prato principal do almoço e em descongelar a carne para o jantar. fer atende com maestria o cliente que acabou de entrar na loja. neco oferece o catálogo da avon para o companheiro de trabalho. iara boceja ao lado do telefone. monique está na fila do crediário. rodolfo marca uma entrevista pelo telefone. paulo brasil encontrou alguém pra falar de glauber rocha. airton acaba de ter uma excelente idéia. pedro cospe. mazé acaba de colocar a caixinha de clorets na bolsa. claudinha diz: sesc birigui, cláudia, boa tarde. talita reiniciou o computador. dani teve um enjôo. márcio branquinho, como um toddynho branco, procura pilhas alcalinas. bru liga para o exterior. sérgio coloca a mão na testa para proteger os olhos do sol. maurício encomenda uma iluminura de martha barros. marco aperta o térreo. celso reclama do speedy e da segunda-feira. micha ouve amy. mel mostra fotos para o amigo ao lado. césar diz: "ai meu deus" enquanto autentica duas cópias e reconhece firma.

estou vivinha da silva, sem meu coração ao menos bater.
tenho cinquentão de uma aposta pra receber. falei e provei por a mais b que a pele é um órgão e o maior deles ainda por cima.

(1984-2004)

eu, você
um tubo de cola
duas tesouras sem ponta
uniformes, impinge, tranças e ki-chute
vá para o canto usar o cone de palhaço
chove no fim da aula e sua mãe vem te buscar
hoje meu coração doeu mais do que os outros dias porque você andou de um lado para o outro aflito (nesse tempo me orgulhava por saber essse adjetivo)
está sem idéias, não desenha e não colore bem
você almoça um prato cheio de couve e mora aqui do lado
voltamos para casa juntos e você encontra derivações irritativas do meu nome
graxa, graviola, gravata
você vai morrer 14 anos depois num carro que não é seu
numa estrada que não é sua, num Estado que você não queria
eu vou espernear ao receber a notícia um dia depois
não vou te ver
vou acender uma vela no cruzeiro do cemitério que não está você
vou perguntar por você
vou continuar duvidando
não precisa falar baixo
gosto de ouvir sua voz daqui de baixo

TVAZ

Sorria, você está sendo xerocopiado. Retrato do artista quando "cara-lisa", cabelos de novela "Que Rei sou Eu", olhar de pincel de Da Vinci, camisa da moda, sabe-se lá a cor e igualmente lisa. Sentado? Em pé? De cócoras? Vivendo como um beatinik na ponte aérea rio-são paulo-curitiba, nas férias. Hoje pode ser visto caminhando de tênis, boné e camiseta de mangas curtas, pela cidade-bairro carioca, pelo mercadinho, pelo bar do Mineiro, pegando na mão de terceiros, indo atender o encanador, o piscineiro e a turma para o churrasco de sábado a tarde, em locais privados do Leblon e na barraca de Acarajé. Tem um time do coração? Ainda ouve Rolling Stones (Stones ou Pink Floyd com orquestra?), no toca-fita do carro? Quais os três pedidos da fita do Senhor do Bonfim, se nem acredita que há um céu com anjos, harpas e trombetas? Me arrasta pelos cabelos e me joga no rio com vida pra eu aprender que só se vive uma vez e que a capital do "tudo pode acontecer", como Paris para os que partem de Angoulême, não fica em outro planeta, logo não precisa de contatos seis meses antes com a Nasa e nem com São Jorge.

Nas melhores casas do ramo, para ser clichê: "Paulo Leminski, o bandido que sabia latim". Autor: Toninho Vaz. (Editora Record) – 1ª. edição, 2000; 2ª. edição, 2005. Biografia do poeta curitibano Paulo Leminski Filho (1944-1989). 378 páginas.

* Foto em rara e única aparição sem barba, como se fazia com formandos do ensino médio.

...

quase uma hora depois...
http://cartunistasolda.blogspot.com/

O MARQUIS VIROU JAVERT CATORZE HORAS DEPOIS

O Marquis veio tirar minhas mordaças. De todos os lugares. E eu nem imaginava que seria hoje. Onde havia orifícios, havia mordaças. E onde havia mordaças ele foi arrancando com uma superlativa sutileza de quem chacoalha lenços de seda na brisa dessas tardes em que uns dançam, contabilizam e dormem e outros agonizam, tossem e morrem. Tenho um orifício a menos, mas só até esta sexta, às sete.

"Hoje estou apenas para você, Marquis, e não há nada de tortura nisso. Nunca tinha pensado em ter um título. Mas quis ter um desde desde que soube que Rabicó era um marquês. Depois vieram todas aquelas personagens de Balzac, em camarotes durante intervalo de óperas e eu passei a recusar essa idéia. Mas ainda prefiro-os a sobrenomes com algarismos romanos. Mas ainda tenho dúvidas sobre aderir a seu título. Ontem foi pouco para saber o que você pretendia com ele. Um adorno, em você cai bem como um chapéu e em mim como uma presilha, dessas que se guarda em porta-jóias, com a afeição de uma jóia de família"

Assinado: a normalista com letra maiúscula que acho que me tornei.