ele está na sala debruçado sobre a mesa escrevendo amenidades sobre mim com letras bem miudinhas. vez ou outra rabisca e começa de novo. é a tentativa de adeus mais orquestrada dessa última temporada. ele pede o papel, diz que tem a caneta e dá a entender que o bilhete é pra mim.
*
ele está deitado no chão, ouvindo the mamas & the papas e correndo os olhos sobre mim. dali a pouco vai dizer que não tem mais saco pra um monte de coisa, que esse seu tempo já passou. mas ela entende o que quer entender e diz que também se arriscou. cada um diz mais duas ou três coisas. depois de uma, duas ou quatro semanas ela dá adeus enquanto atravessa o corredor, para o adeus que ele tinha dito naquela noite de sexo tão solene.
*
ele está com os olhos rasos e um poema na cabeça. ela está com uma rave no estômago, com o livro do poema e zonza. ela diz: vou, ele observa. depois ela vai e o dia fica parado o dia todo às 9 em ponto da manhã.
*
ele está com roupa de gala e não me reconhece muito bem. ela está com roupa de gala e pede pra que ele comece. então ele diz adeus pelos dois. e o fim que chegou há um mês, chega de novo.
*
ele não veio se despedir. aliás, nunca se despede, nem quando vai embora. encosta os lábios no que tiver ao alcance e não se sabe se ele vai ali pegar o isqueiro ou se vai passar a luz de mel há 3000 km dali. então volta e meia eu me despeço por conta, para nunca mais ou até amanhã.
*
o tal do infinito enquanto dure.
domingo, 27 de setembro de 2009
CATALOGAÇÃO
PORTA DA GELADEIRA
Quando eu os amarei?
De minha parte, eu não sei.
Pode ser nunca. Pode ser amanhã.
(Carmen, de Bizet)
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